Publicado por: lpferraz em: julho 26, 2010
Quando Iosif Ivanovici compôs a valsa Valurile Dunării (As Ondas do Danúbio) em Bucareste, Romênia, no ano de 1880 não imaginava a história que narrarrei. A valsa é apena o pano de fundo. Quer dizer, na verdade, nem isso. A valsa é o fio que une os únicos dois personagens da história: eu e a mulher. Chamemos de a mulher, pois nunca soube seu nome. Vamos ao início. Minha vida em Sevilla se resumia a uma meia dúzia de ruas e avenidas principais que eu passava quase todas as semanas: a Bétis, a Sierpes, a Virgen de Luján, a República Argentina, a María Luísa e a Constitución.
É nesta última se passa nosso enredo. A Avenida de la Constitución, que vai da Puerta Jerez ao Ayuntamiento, é uma via que todo turista que esteja em Sevilla irá passar, pois é caminho quase que obrigatório para pontos turísticos como a calle Sierpes, o Alcázar, a Catedral e o Archivo. Sendo assim, várias e várias vezes passei na Constitución, uma avenida cheia de turistas e sevillanos, abarrotada de ciganas tentando lhe entregar folhas de ramos dizendo que é só um presente, para depois lhe pedir dinheiro. Mas como a maioria das avenidas européias, na Constitución há vários artistas tocando, cantando, pintando, fazendo o que sabem de melhor.
De todos que eu já tinha visto ali, uma sempre me chamava atenção. Já a havia escutado tocar pela manhã, pela tarde e pela noite. Mais ou menos em frente à Cajasol ela ficava sentada, com seu vestido, aparentemente uma cigana. Ao seu lado, ficava um pequeno cachorro. O que me encantava era que ela tocava apenas uma música, As Onda do Danúbio de Ivanovici. Todo o dia que você passasse era a mesma música. Ela, seu acordeón, seu cahorro e a valsa romena. Eu gostava tanto, mas tanto que sentia falta dela quando não estava no momento em que passava por aquele trecho da avenida. Ou ainda quando ela estava lá, mas tinha acabado de parar, daí eu esperava ela retornar para só então prosseguir meu caminho. Era como se aquela parte tivesse uma trilha sonora específica.
Me tocava muito ver aquela mulher, dias após dia repetindo a mesma música com um tom muito triste. Passei a imaginar qual seria a história dela. Numa das minhas últimas elaborações imaginei que ela era uma imigrante romena (há muitos em Sevilla) que perdeu seu esposo e agora tentava ganhar a vida daquela forma. Daí decidi que daria a ela a única esmola que deixaria na Europa. Muitas vezes pensei se ela sabia da minha existência, eu realmente passei várias vezes na frente dela e em algumas fiquei parado quase que sozinho na frente dela, mas enfim, fiquei com minha promessa na cabeça e fui seguindo meus dias em Sevilla.
Tempos se passaram e era meu último dia em Sevilla, eu tinha ido fazer alguma coisa da qual não me recordo na calle Sierpes e fui voltando pela Constitución, naquele momento estava agoniado e nervoso correndo para casa para arrumar a mala, pois pegaria um trem para Madrid em poucas horas. Fui andando num passo apressado, a mulher nem chegava aos meus pensamentos. Passei pela frente da Cajasol e nada, ela não tocou. Se ela tivesse tocado naquele instante, com certeza eu me lembraria e teria dado minha contribuição, mas ela não tocou naquele momento. Já tinha passado por ela, quando escutei o início da música que tanto me marcou. Parei, me lembrei da promessa e fui num traçado retilínio ao seu encontro. Olhei pra ela, ela continuou tocando e sorriu. Eu sorri, me abaixei e coloquei dinheiro numa cesta à sua frente. Me levantei, ela sorriu e balbuciou um gracias e eu, ao invés de dizer de nada, disse também: gracias. E assim nos despedimos.
ps: uma versão da música…com acordeón e um pouco mais feliz.
julho 28, 2010 às 4:38 pm
O mais belo do que tu escreveu, além de tua impressão com uma sensibilidade única e bonita, é que posso compartilhar contigo as imagens das palavras do teu texto. Posso até escutar a música do acordeon e lembro mais ainda do cachorrinho divertido que sempre acompanhava ela.
Gracias, Juan. Te agradeço, pois há 20 dias longe de Sevilla, sinto aquela velha vontade de voltar para a vida ali. Teu post certamente me levou até nossas memórias de lá.